Literatura: Um dia na vida de Ivan Denissovitch

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Ivan Deníssovitch Chukhov é prisioneiro em um campo de concentração russo durante a 2ª Guerra Mundial. A narrativa conta um dia na vida do protagonista, do momento em que acorda até a hora em que vai dormir. O autor desenvolve o relato com muita propriedade, pois ele mesmo foi prisioneiro entre 1945 e 1953, sob o governo de Josef Stálin.

O livro é tão bem escrito e tem um senso de humor tão incrível que até parece a descrição de um acampamento de escoteiros! É sensacional. Lançado em uma revista na União Soviética em 1962, o romance foi a primeira obra publicada no país relatando a vida dos prisioneiros políticos durante a era stalinista (1924-1953). Garimpei algumas informações sobre o autor: Alexsander Soljenitsin nasceu em 1918 numa cidade próxima de Moscou. Formado em Física, era professor de matemática quando foi preso e condenado a 10 anos de trabalhos forçados, por ter feito uma piada sobre Stálin em uma correspondência particular.

Logo após o lançamento de Ivan Denissovitch, o autor foi aclamado no país como um grande escritor (governo de N. Krushov, crítico do stalinismo e seus crimes). Com o passar do tempo, porém, gradualmente foi sendo rejeitado, e seus livros (Pavilhão de cancerososO primeiro círculo) foram proibidos pelo governo. No entanto, cópias de suas obras conseguiram chegar ao Ocidente, obtendo grande repercussão. O Prêmio Nobel de Literatura de 1970 lhe foi concedido pela Academia sueca sob intensa pressão contrária do governo soviético: Soljenitsin não pode sair do país para receber o prêmio.

Em O primeiro círculo, ele escreveu: “Possuir um grande escritor equivale para um país ter outro governo. Eis porque nenhum governo nunca gostou dos grandes escritores, mas só dos pequenos”. Soljenitsin confessou que o desejo de escrever sobreveio-lhe muito cedo, “bem antes de compreender o que é um escritor e por que escreve”.

Georges Nivat, professor de Literatura russa na Universidade de Paris, escreveu sobre o autor: “Antes de tudo, A. S. visa a destruir os tabiques que encerram o homem, que o isolam. E de todos os tabiques, o mais espesso é o da perversão da linguagem humana. O mundo está atrozmente doente, não sabe mais se comunicar, perdeu o dom do diálogo, da piedade, da caridade. (…) Todo o esforço de A.S. romancista consiste em restabelecer a comunicação entre os homens da sociedade que ele descreve, em revelar o riacho subterrâneo da justiça. O que ele acusa em primeiro lugar é a mentira. (…) Ele nunca é tão severo em sua obra como ‘para com os literatos da mentira, que desviaram a literatura (…)’.”

Em 1973 foi publicada sua obra mais famosa, Arquipélago Gulag, uma descrição minuciosa do sistema dos campos de concentração soviéticos, pela qual foi exilado de seu país. Viveu recluso com sua esposa numa região rural dos Estados Unidos, tornando-se um crítico feroz do estilo de vida capitalista norte-americano. Morreu em agosto de 2008.

Para nossa felicidade, seus livros podem ser facilmente encontrados em sebos. Vivas à boa literatura universal!

 

* As citações acima são da introdução da edição brasileira de 1973 de Um dia na vida… (Editora Opera Mundi).

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Alice Munro: uma graça silenciosa

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Quinta-feira passada, dia 10/10, foi anunciado o nome do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2013: a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos de idade. Muito famosa em seu país, “sua prosa realista usa temas do cotidiano para abordar a condição humana, tratando do amor e da morte. Por sua clareza e seu realismo psicológico, muitos críticos a consideram “a Tchekhov do Canadá” “. Há poucos anos, li um artigo incrível a respeito da autora – daí o título desta postagem -, mas ainda não li nenhum livro seu. A Deutsche Welle publicou uma excelente matéria a respeito da premiação, com esta citação da autora:

Não existem assuntos grandes e pequenos. As grandes coisas, os males que existem no mundo têm uma relação direta com o mal que existe ao redor de uma mesa de jantar quando as pessoas estão agindo umas contra as outras.

Abaixo, um breve trecho do artigo a que acima me referi, escrito pela dramaturga Jeanne Murray Walker:

“A primeira vez que abri um livro de contos de Munro, fiquei chocada com a diferença entre ela e os autores que estudara na graduação. Na ficção de Munro, encontrei uma grande riqueza de cheiros, imagens e sons conhecidos meus. Além de acontecer em cenários familiares como rinques de patinação e salas de aula, as histórias estavam repletas de cheiro de desinfetantes, sabor de cerveja caseira, toques de peixes escorregadios escapulindo do barco e mergulhando na água. Comecei a ver que um mundo tão cheio de particularidades só podia ser fruto de milagrosa atenção e cuidado. Lembrei-me do poema de Richard Wilbur, “O amor nos chama para as coisas deste mundo”. […] Como enfatizou Robert Browning, muitas vezes não vemos na vida o que antes não vimos na arte” (In: J. C. Schaap & P. Yancey, Muito mais que palavras. São Paulo: Vida, 2005, p. 299-300).

Finalmente: vejam que artigo emocionante a economista e professora da PUC-RJ Monica de Bolle escreveu para O Globo, sobre Alice Munro!

No mundo contemporâneo, poupam-se tempo e palavras. Redes sociais, Twitter, blogs. A proliferação dos meios digitais de comunicação obriga os escritores, amadores ou não, a resumir em poucas palavras uma ideia ou uma reflexão. Isso se tornou um grande desafio ao conteúdo da mensagem. Frequentemente, a concisão resvala na superficialidade, ou, pior, nas análises rasas revestidas de polêmica inútil. Desafortunadamente, a economia de palavras vem acompanhada da falta de profundidade de pensamento e de conteúdo. Mas há esperança. Anton Tchekov e Jorge Luis Borges são dois exemplos distantes no tempo e no espaço que mostraram o poder inequívoco da concisão, a verdadeira concisão, aquela que não pode de modo algum ser confundida com a superficialidade. Esse poder não distingue gêneros, não é prerrogativa do sexo masculino.

A capacidade de resumir, em poucas páginas e com uma narrativa cativante, as angústias, as aflições, os dilemas, os turbilhões que podem se formar sob a aparente placidez da vida cotidiana é para poucos. Quando o talento da concisão surge, ele é arrebatador. O conto é o terreno da concisão. Todavia, ele é um gênero literário pouco prestigiado. Ou melhor, era. A Academia Sueca acaba de conceder o Prêmio Nobel de literatura, instituído por Alfred Nobel em 1901, à escritora canadense Alice Munro, citando-a como uma “mestra do conto contemporâneo” (“a master of the contemporary short story”). Alice Munro é a 13ª mulher a receber o prêmio nos 102 anos de sua existência.

Apesar de ser uma escritora de contos, Alice Munro não é minimalista. Suas histórias contêm um mundo de nuances, reflexões, ironias e paradoxos. A sutileza, a nuance, o infinito em poucas páginas ou palavras são uma raridade no mundo de hoje. É mais fácil perverter a concisão para provocar polêmicas ou para reciclar ideias antiquadas travestidas de novidade.

No debate econômico e político brasileiro, a polêmica barata e a reciclagem de argumentos, contra ou a favor da política econômica do governo, de “esquerda” ou de “direita”, abundam. Nessa falsa concisão se perde a complexidade dos temas, a textura intrincada de questões como a convivência da melhoria da qualidade de vida da população, alcançada nos últimos anos, com uma economia que não cresce assolada por uma inflação que não cede. Parabéns à Academia Sueca. Não somente por ter concedido o Prêmio Nobel de Literatura a uma talentosíssima mulher de 82 anos, mas por ter resgatado a importância de ser simultaneamente conciso e profundo. Ou, no caso, concisa e profunda.

Fonte: (O Globo, 11.10.2013)