Relendo C. S. Lewis

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Há 50 anos, no dia 22 de novembro de 1963, falecia o magnífico escritor irlandês Clive S. Lewis – coincidentemente, no mesmo dia em que morreram John F. Kennedy e Aldous Huxley, outros dois importantíssimos personagens do século 20. Reli, há poucos dias, este trecho seu:

“Quase todo o arcabouço psicológico do homem é derivado do corpo. Quando o corpo morrer, tudo isso desaparecerá, e o verdadeiro homem interior, aquele que escolhe e que pode fazer o melhor ou o pior com o material disponível, estará de pé, nu. Todas as coisas boas que pensávamos serem nossas, mas que não passavam do fruto de uma boa fisiologia, serão separadas de alguns de nós; e toda a sorte de coisas más, resultantes de complexos ou de uma saúde precária, serão separadas de outros. Veremos, então, pela primeira vez, cada qual como realmente era. Haverá surpresas.”

 

(Do livro Cristianismo puro e simplesSão Paulo: Martins Fontes, 2005)

Flores e céu azul

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Não importam as flores,

Não importam as cores,

Não importam as nossas dores,

O céu é sempre azul

 

Importam os sabores,

Importam os aromas,

Importam nossos amores,

E o céu, sempre azul…

Poema que compus durante uma visita ao Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. As fotos também foram tiradas por mim… 🙂

Roger Scruton: Por que a beleza importa?

Este documentário foi dirigido pelo filósofo inglês Roger Scruton – um dos mais importantes intelectuais da Europa – e veiculado pela BBC escocesa em 28/11/2009. Nele, de uma forma brilhante, instigante e muito elucidativa, o Professor Roger Scruton demonstra como a partir do século XX, perdendo o senso ético e estético de(a) Beleza, a humanidade afundou-se ainda mais no que ele chama, com inteira razão, de deserto espiritual. Tal deserto, indubitavelmente, é um dos frutos do ideal, soberbo e falacioso, da modernidade iluminista que assentiu que “o homem é a medida de todas as coisas“. Hoje, já na pós-modernidade da humanidade, já não há mais senso ético e estético de Verdade, de Bondade ou, como bem explica Scruton, de Beleza. As consequências disso? Muitas!

Alice Munro: uma graça silenciosa

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Quinta-feira passada, dia 10/10, foi anunciado o nome do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2013: a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos de idade. Muito famosa em seu país, “sua prosa realista usa temas do cotidiano para abordar a condição humana, tratando do amor e da morte. Por sua clareza e seu realismo psicológico, muitos críticos a consideram “a Tchekhov do Canadá” “. Há poucos anos, li um artigo incrível a respeito da autora – daí o título desta postagem -, mas ainda não li nenhum livro seu. A Deutsche Welle publicou uma excelente matéria a respeito da premiação, com esta citação da autora:

Não existem assuntos grandes e pequenos. As grandes coisas, os males que existem no mundo têm uma relação direta com o mal que existe ao redor de uma mesa de jantar quando as pessoas estão agindo umas contra as outras.

Abaixo, um breve trecho do artigo a que acima me referi, escrito pela dramaturga Jeanne Murray Walker:

“A primeira vez que abri um livro de contos de Munro, fiquei chocada com a diferença entre ela e os autores que estudara na graduação. Na ficção de Munro, encontrei uma grande riqueza de cheiros, imagens e sons conhecidos meus. Além de acontecer em cenários familiares como rinques de patinação e salas de aula, as histórias estavam repletas de cheiro de desinfetantes, sabor de cerveja caseira, toques de peixes escorregadios escapulindo do barco e mergulhando na água. Comecei a ver que um mundo tão cheio de particularidades só podia ser fruto de milagrosa atenção e cuidado. Lembrei-me do poema de Richard Wilbur, “O amor nos chama para as coisas deste mundo”. […] Como enfatizou Robert Browning, muitas vezes não vemos na vida o que antes não vimos na arte” (In: J. C. Schaap & P. Yancey, Muito mais que palavras. São Paulo: Vida, 2005, p. 299-300).

Finalmente: vejam que artigo emocionante a economista e professora da PUC-RJ Monica de Bolle escreveu para O Globo, sobre Alice Munro!

No mundo contemporâneo, poupam-se tempo e palavras. Redes sociais, Twitter, blogs. A proliferação dos meios digitais de comunicação obriga os escritores, amadores ou não, a resumir em poucas palavras uma ideia ou uma reflexão. Isso se tornou um grande desafio ao conteúdo da mensagem. Frequentemente, a concisão resvala na superficialidade, ou, pior, nas análises rasas revestidas de polêmica inútil. Desafortunadamente, a economia de palavras vem acompanhada da falta de profundidade de pensamento e de conteúdo. Mas há esperança. Anton Tchekov e Jorge Luis Borges são dois exemplos distantes no tempo e no espaço que mostraram o poder inequívoco da concisão, a verdadeira concisão, aquela que não pode de modo algum ser confundida com a superficialidade. Esse poder não distingue gêneros, não é prerrogativa do sexo masculino.

A capacidade de resumir, em poucas páginas e com uma narrativa cativante, as angústias, as aflições, os dilemas, os turbilhões que podem se formar sob a aparente placidez da vida cotidiana é para poucos. Quando o talento da concisão surge, ele é arrebatador. O conto é o terreno da concisão. Todavia, ele é um gênero literário pouco prestigiado. Ou melhor, era. A Academia Sueca acaba de conceder o Prêmio Nobel de literatura, instituído por Alfred Nobel em 1901, à escritora canadense Alice Munro, citando-a como uma “mestra do conto contemporâneo” (“a master of the contemporary short story”). Alice Munro é a 13ª mulher a receber o prêmio nos 102 anos de sua existência.

Apesar de ser uma escritora de contos, Alice Munro não é minimalista. Suas histórias contêm um mundo de nuances, reflexões, ironias e paradoxos. A sutileza, a nuance, o infinito em poucas páginas ou palavras são uma raridade no mundo de hoje. É mais fácil perverter a concisão para provocar polêmicas ou para reciclar ideias antiquadas travestidas de novidade.

No debate econômico e político brasileiro, a polêmica barata e a reciclagem de argumentos, contra ou a favor da política econômica do governo, de “esquerda” ou de “direita”, abundam. Nessa falsa concisão se perde a complexidade dos temas, a textura intrincada de questões como a convivência da melhoria da qualidade de vida da população, alcançada nos últimos anos, com uma economia que não cresce assolada por uma inflação que não cede. Parabéns à Academia Sueca. Não somente por ter concedido o Prêmio Nobel de Literatura a uma talentosíssima mulher de 82 anos, mas por ter resgatado a importância de ser simultaneamente conciso e profundo. Ou, no caso, concisa e profunda.

Fonte: (O Globo, 11.10.2013)

 

Frankfurt: entre o tempo e a eternidade

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Esta semana, na abertura da maior e mais antiga Feira do Livro do mundo, na qual o Brasil é o país homenageado, o escritor brasileiro Luiz Ruffato fez um discurso muito duro (divulgado pelo escritor no Google docs) denunciando as várias mazelas históricas do nosso país. Sem entrar no mérito das questões levantadas por ele – ou da conveniência da ocasião -, não tenho como deixar de tecer um comentário sobre a conclusão de sua fala:

Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser
unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Ora, o destino último e a felicidade última de cada ser humano jamais poderão ser encontrados unicamente na Terra, porque nossas raízes estão fincadas no transcendente, ie, na eternidade. Só quem reconhece essa realidade tem condições, de fato, de alcançar a felicidade – AQUI E AGORA. A literatura, em sua melhor forma, aponta para isso.

(A propósito: como será a literatura produzida pelo Luiz Ruffato, hein? Vou dar uma olhada…)

 

 

Poesia para alegrar o dia – 2

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Em troca de folhas velhas

A terra dá flores e pão

Dá tu em troca de ofensas

Bondade, amor e perdão

 

Semeia o amor sem veres

O terreno onde cair

Onde menos o esperes

Talvez o vejas florir

 

Quem sabe não há um tesouro

Sob a terra que pisamos?

Podem valer mais que nós

Aqueles que desprezamos

 

Importa saber falar

Mas também saber ouvir

Nada pode aproveitar

Quem não sabe discernir

 

Ouve bem o que te digo

Se não queres aborrecer:

Na vida do teu amigo

Não te vás intrometer

 

Quem aconselha aborrece,

Sempre no mundo se ouviu

Ninguém quer ou agradece

Conselho que não pediu

 

Dignidade não é ouro,

Nem é tampouco poder

Dignidade é um tesouro

Que o mais pobre pode ter

 

Não digas mal de ninguém

Ainda que tenhas razão:

Pois quem te ouvir logo tem

De ti má opinião

 

Mal por mal, antes ser escravo

Do coração e errar,

Que ser escravo da razão

E sem amor acertar

 

Ter saudade é ter presente

Um bem que nos pertenceu

E, embora de nós ausente,

De todo não se perdeu

 

Julgo que a alma será

Esta chama fugidia

Que, ao fitar outros olhos,

O nosso olhar irradia

 

O amor é como o sol,

Mesmo encoberto alumia

Nunca disse que te amava

E toda gente o sabia…

 

Traz a vida separados

Dois corações bem unidos,

E outros aborrecidos

De má vontade abraçados

 

Ninguém pode ser juiz

Nas contendas do amor:

O coração nunca diz

O que tem no interior

 

O amor e a doença

São conforme o temperamento:

No nome não há diferença,

É diferente o sofrimento

 

E hoje em trovas singelas

Minhas mágoas vou dizendo;

Menos sofrendo em dizê-las

Do que em silêncio ir sofrendo

 

Só o amor tem poder

De dois corações juntar

Contudo, sempre hão de ter

De um ao outro perdoar

 

Toda casa deve ser

Um santuário de amor:

Sagrada para quem lá vive,

Exemplo de quem lá for

 

Na escala dos amores,

Ao alto o amor de mãe

Se todos têm valor,

Valor como ele não tem

 

Faltava a Deus lá no céu

O doce nome de mãe

Para o ter, Jesus nasceu

Da Virgem pura em Belém

 

Se hoje tiveres motivo

Para rir e estar contente

Deixa passado e futuro,

Goza apenas o presente

 

Uma trova é pequenina

E encerra, quando sentida,

O pulsar do coração,

Toda a beleza da vida

 

Em quatro versos somente

Canta a alegria e a dor,

Cantando sentidamente

A saudade e o amor

 

Sei que os meus versos são velhos

De séculos – deixai-os ser

O sol é bem mais antigo

E não deixa de nascer…

 

Ana Rolão Preto M. Abano – CarumaLisboa, 1958

(Foto: Serra da Gardunha, Portugal – terra natal da autora)

ALERTA: A péssima filosofia da educação de Maria Lúcia de Arruda Aranha

Há cerca de 10 anos, em 2003 ou 2004, ainda nos tempos da faculdade, tive que fazer um trabalho para uma matéria da Licenciatura, usando o livro abaixo:

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A 1ª edição, que eu utilizei, é de 1989. Logo no primeiro capítulo, a autora – que em 1971 já era professora de Filosofia, segundo esta matéria da Agência Brasil – afirma o seguinte, no item 1.4, “Cultura e socialização”:

O processo de socialização se inicia por meio da ação exercida pela comunidade sobre os homens.[…] É possível dizer então que a condição humana não resulta da realização hipotética de instintos, mas da assimilação de modelos sociais: o ser do homem se faz mediado pela cultura. […] Por isso, a condição humana não apresenta características universais e eternas, pois variam as maneiras pelas quais os homens respondem socialmente aos desafios […].

Ora, como é possível a condição humana não apresentar “…características universais e eternas”? Pois são justamente elas que permitem a imensa variedade de maneiras pelas quais os homens, de todas as culturas e de todos os tempos, respondem aos desafios que a existência oferece, sempre de maneira criativa! Então, a criatividade é uma característica universal e eterna da condição humana, ao contrário da “condição animal” dos irracionais, que só agem movidos pelo instinto. E eis aqui mais uma característica universal e eterna: a racionalidade, a capacidade de fazer perguntas (os porquês e para quês etc).

Da mesma forma, a condição humana não resulta da “… assimilação de modelos sociais”: ela é justamente a “condição” que permite aos seres humanos assimilarem os modelos sociais, transformando-os – e sendo transformados – pela mediação da cultura. A condição humana necessariamente antecede os modelos sociais.

Logo depois, no tópico 1.5 (“Sociedade e indivíduo”), a autora escreve:

A transformação produzida pelo homem pode ser caracterizada como um ato de liberdade, entendendo-se liberdade não como alguma coisa que é dada ao homem, mas como o resultado da sua capacidade de compreender o mundo, projetar mudanças e realizar projetos.

Ora, a liberdade não é o resultado da capacidade do homem de compreender o mundo e transformá-lo, mas é causa dessa capacidade. A liberdade é “dada” ao homem, isto é, ela é inata a todos os seres humanos; é mais uma das características universais e eternas da condição humana.

—–

Esse foi só o primeiro capítulo. Não li o restante da obra, apenas folheei. Sem dúvida, há de haver muitas coisas boas e úteis em todo o livro e – muito provavelmente – problemas semelhantes a esse. Graves, portanto!

Em 2006 saiu uma 3ª edição revista e aumentada da obra, com grandes alterações em sua estrutura. O primeiro capítulo foi deslocado para o meio do livro, e pelo menos uma das citações acima permanece, sem nenhuma modificação. (Estou me perguntando se valeria a pena ler atentamente toda a obra para fazer as eventuais correções. Bem, se alguém quiser me pagar para isso… Aceito!)

Dedico esta postagem a todos os professores, estudantes e profissionais de Pedagogia e de ciências humanas, no Brasil e em todos os países de língua portuguesa. Afinal, a nossa Educação TEM QUE MELHORAR!!

Quanto à professora Maria Lúcia: espero que esteja bem e, caso chegue ao seu conhecimento esta crítica, que lhe sirva para reflexão e aprimoramento pessoal e profissional.

(Observação: o título do post é propositalmente apelativo, apenas para chamar mais a atenção)