Alice Munro: uma graça silenciosa

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Quinta-feira passada, dia 10/10, foi anunciado o nome do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2013: a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos de idade. Muito famosa em seu país, “sua prosa realista usa temas do cotidiano para abordar a condição humana, tratando do amor e da morte. Por sua clareza e seu realismo psicológico, muitos críticos a consideram “a Tchekhov do Canadá” “. Há poucos anos, li um artigo incrível a respeito da autora – daí o título desta postagem -, mas ainda não li nenhum livro seu. A Deutsche Welle publicou uma excelente matéria a respeito da premiação, com esta citação da autora:

Não existem assuntos grandes e pequenos. As grandes coisas, os males que existem no mundo têm uma relação direta com o mal que existe ao redor de uma mesa de jantar quando as pessoas estão agindo umas contra as outras.

Abaixo, um breve trecho do artigo a que acima me referi, escrito pela dramaturga Jeanne Murray Walker:

“A primeira vez que abri um livro de contos de Munro, fiquei chocada com a diferença entre ela e os autores que estudara na graduação. Na ficção de Munro, encontrei uma grande riqueza de cheiros, imagens e sons conhecidos meus. Além de acontecer em cenários familiares como rinques de patinação e salas de aula, as histórias estavam repletas de cheiro de desinfetantes, sabor de cerveja caseira, toques de peixes escorregadios escapulindo do barco e mergulhando na água. Comecei a ver que um mundo tão cheio de particularidades só podia ser fruto de milagrosa atenção e cuidado. Lembrei-me do poema de Richard Wilbur, “O amor nos chama para as coisas deste mundo”. […] Como enfatizou Robert Browning, muitas vezes não vemos na vida o que antes não vimos na arte” (In: J. C. Schaap & P. Yancey, Muito mais que palavras. São Paulo: Vida, 2005, p. 299-300).

Finalmente: vejam que artigo emocionante a economista e professora da PUC-RJ Monica de Bolle escreveu para O Globo, sobre Alice Munro!

No mundo contemporâneo, poupam-se tempo e palavras. Redes sociais, Twitter, blogs. A proliferação dos meios digitais de comunicação obriga os escritores, amadores ou não, a resumir em poucas palavras uma ideia ou uma reflexão. Isso se tornou um grande desafio ao conteúdo da mensagem. Frequentemente, a concisão resvala na superficialidade, ou, pior, nas análises rasas revestidas de polêmica inútil. Desafortunadamente, a economia de palavras vem acompanhada da falta de profundidade de pensamento e de conteúdo. Mas há esperança. Anton Tchekov e Jorge Luis Borges são dois exemplos distantes no tempo e no espaço que mostraram o poder inequívoco da concisão, a verdadeira concisão, aquela que não pode de modo algum ser confundida com a superficialidade. Esse poder não distingue gêneros, não é prerrogativa do sexo masculino.

A capacidade de resumir, em poucas páginas e com uma narrativa cativante, as angústias, as aflições, os dilemas, os turbilhões que podem se formar sob a aparente placidez da vida cotidiana é para poucos. Quando o talento da concisão surge, ele é arrebatador. O conto é o terreno da concisão. Todavia, ele é um gênero literário pouco prestigiado. Ou melhor, era. A Academia Sueca acaba de conceder o Prêmio Nobel de literatura, instituído por Alfred Nobel em 1901, à escritora canadense Alice Munro, citando-a como uma “mestra do conto contemporâneo” (“a master of the contemporary short story”). Alice Munro é a 13ª mulher a receber o prêmio nos 102 anos de sua existência.

Apesar de ser uma escritora de contos, Alice Munro não é minimalista. Suas histórias contêm um mundo de nuances, reflexões, ironias e paradoxos. A sutileza, a nuance, o infinito em poucas páginas ou palavras são uma raridade no mundo de hoje. É mais fácil perverter a concisão para provocar polêmicas ou para reciclar ideias antiquadas travestidas de novidade.

No debate econômico e político brasileiro, a polêmica barata e a reciclagem de argumentos, contra ou a favor da política econômica do governo, de “esquerda” ou de “direita”, abundam. Nessa falsa concisão se perde a complexidade dos temas, a textura intrincada de questões como a convivência da melhoria da qualidade de vida da população, alcançada nos últimos anos, com uma economia que não cresce assolada por uma inflação que não cede. Parabéns à Academia Sueca. Não somente por ter concedido o Prêmio Nobel de Literatura a uma talentosíssima mulher de 82 anos, mas por ter resgatado a importância de ser simultaneamente conciso e profundo. Ou, no caso, concisa e profunda.

Fonte: (O Globo, 11.10.2013)

 
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