Poesia para alegrar o dia – 2

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Em troca de folhas velhas

A terra dá flores e pão

Dá tu em troca de ofensas

Bondade, amor e perdão

 

Semeia o amor sem veres

O terreno onde cair

Onde menos o esperes

Talvez o vejas florir

 

Quem sabe não há um tesouro

Sob a terra que pisamos?

Podem valer mais que nós

Aqueles que desprezamos

 

Importa saber falar

Mas também saber ouvir

Nada pode aproveitar

Quem não sabe discernir

 

Ouve bem o que te digo

Se não queres aborrecer:

Na vida do teu amigo

Não te vás intrometer

 

Quem aconselha aborrece,

Sempre no mundo se ouviu

Ninguém quer ou agradece

Conselho que não pediu

 

Dignidade não é ouro,

Nem é tampouco poder

Dignidade é um tesouro

Que o mais pobre pode ter

 

Não digas mal de ninguém

Ainda que tenhas razão:

Pois quem te ouvir logo tem

De ti má opinião

 

Mal por mal, antes ser escravo

Do coração e errar,

Que ser escravo da razão

E sem amor acertar

 

Ter saudade é ter presente

Um bem que nos pertenceu

E, embora de nós ausente,

De todo não se perdeu

 

Julgo que a alma será

Esta chama fugidia

Que, ao fitar outros olhos,

O nosso olhar irradia

 

O amor é como o sol,

Mesmo encoberto alumia

Nunca disse que te amava

E toda gente o sabia…

 

Traz a vida separados

Dois corações bem unidos,

E outros aborrecidos

De má vontade abraçados

 

Ninguém pode ser juiz

Nas contendas do amor:

O coração nunca diz

O que tem no interior

 

O amor e a doença

São conforme o temperamento:

No nome não há diferença,

É diferente o sofrimento

 

E hoje em trovas singelas

Minhas mágoas vou dizendo;

Menos sofrendo em dizê-las

Do que em silêncio ir sofrendo

 

Só o amor tem poder

De dois corações juntar

Contudo, sempre hão de ter

De um ao outro perdoar

 

Toda casa deve ser

Um santuário de amor:

Sagrada para quem lá vive,

Exemplo de quem lá for

 

Na escala dos amores,

Ao alto o amor de mãe

Se todos têm valor,

Valor como ele não tem

 

Faltava a Deus lá no céu

O doce nome de mãe

Para o ter, Jesus nasceu

Da Virgem pura em Belém

 

Se hoje tiveres motivo

Para rir e estar contente

Deixa passado e futuro,

Goza apenas o presente

 

Uma trova é pequenina

E encerra, quando sentida,

O pulsar do coração,

Toda a beleza da vida

 

Em quatro versos somente

Canta a alegria e a dor,

Cantando sentidamente

A saudade e o amor

 

Sei que os meus versos são velhos

De séculos – deixai-os ser

O sol é bem mais antigo

E não deixa de nascer…

 

Ana Rolão Preto M. Abano – CarumaLisboa, 1958

(Foto: Serra da Gardunha, Portugal – terra natal da autora)

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ALERTA: A péssima filosofia da educação de Maria Lúcia de Arruda Aranha

Há cerca de 10 anos, em 2003 ou 2004, ainda nos tempos da faculdade, tive que fazer um trabalho para uma matéria da Licenciatura, usando o livro abaixo:

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A 1ª edição, que eu utilizei, é de 1989. Logo no primeiro capítulo, a autora – que em 1971 já era professora de Filosofia, segundo esta matéria da Agência Brasil – afirma o seguinte, no item 1.4, “Cultura e socialização”:

O processo de socialização se inicia por meio da ação exercida pela comunidade sobre os homens.[…] É possível dizer então que a condição humana não resulta da realização hipotética de instintos, mas da assimilação de modelos sociais: o ser do homem se faz mediado pela cultura. […] Por isso, a condição humana não apresenta características universais e eternas, pois variam as maneiras pelas quais os homens respondem socialmente aos desafios […].

Ora, como é possível a condição humana não apresentar “…características universais e eternas”? Pois são justamente elas que permitem a imensa variedade de maneiras pelas quais os homens, de todas as culturas e de todos os tempos, respondem aos desafios que a existência oferece, sempre de maneira criativa! Então, a criatividade é uma característica universal e eterna da condição humana, ao contrário da “condição animal” dos irracionais, que só agem movidos pelo instinto. E eis aqui mais uma característica universal e eterna: a racionalidade, a capacidade de fazer perguntas (os porquês e para quês etc).

Da mesma forma, a condição humana não resulta da “… assimilação de modelos sociais”: ela é justamente a “condição” que permite aos seres humanos assimilarem os modelos sociais, transformando-os – e sendo transformados – pela mediação da cultura. A condição humana necessariamente antecede os modelos sociais.

Logo depois, no tópico 1.5 (“Sociedade e indivíduo”), a autora escreve:

A transformação produzida pelo homem pode ser caracterizada como um ato de liberdade, entendendo-se liberdade não como alguma coisa que é dada ao homem, mas como o resultado da sua capacidade de compreender o mundo, projetar mudanças e realizar projetos.

Ora, a liberdade não é o resultado da capacidade do homem de compreender o mundo e transformá-lo, mas é causa dessa capacidade. A liberdade é “dada” ao homem, isto é, ela é inata a todos os seres humanos; é mais uma das características universais e eternas da condição humana.

—–

Esse foi só o primeiro capítulo. Não li o restante da obra, apenas folheei. Sem dúvida, há de haver muitas coisas boas e úteis em todo o livro e – muito provavelmente – problemas semelhantes a esse. Graves, portanto!

Em 2006 saiu uma 3ª edição revista e aumentada da obra, com grandes alterações em sua estrutura. O primeiro capítulo foi deslocado para o meio do livro, e pelo menos uma das citações acima permanece, sem nenhuma modificação. (Estou me perguntando se valeria a pena ler atentamente toda a obra para fazer as eventuais correções. Bem, se alguém quiser me pagar para isso… Aceito!)

Dedico esta postagem a todos os professores, estudantes e profissionais de Pedagogia e de ciências humanas, no Brasil e em todos os países de língua portuguesa. Afinal, a nossa Educação TEM QUE MELHORAR!!

Quanto à professora Maria Lúcia: espero que esteja bem e, caso chegue ao seu conhecimento esta crítica, que lhe sirva para reflexão e aprimoramento pessoal e profissional.

(Observação: o título do post é propositalmente apelativo, apenas para chamar mais a atenção)

Viva John R. R. Tolkien!

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Ontem foi o 40º aniversário de falecimento do grandioso escritor inglês John R. R. Tolkien. Para quem nunca leu nada dele: olhem só estes breves trechos de seu livro “O Silmarillion”:

A esposa de Aulë é Yavanna, a Provedora de Frutos. Ela ama todas as coisas que crescem na terra; e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas ao musgo sobre as pedras ou aos seres pequenos e secretos que vivem no solo. Em reverência, Yavanna vem logo após Varda entre as Rainhas dos Valar. Na forma de mulher, ela é alta e se traja de verde; mas às vezes assume outras formas. Há quem a tenha visto em pé como uma árvore sob o firmamento, coroada pelo Sol; e, de todos os seus galhos, derramava-se um orvalho dourado sobre a terra estéril, que se tornava verdejante com o trigo; mas as raízes das árvores estavam nas águas de Ulmo, e os ventos de Manwë falavam nas suas folhas. Kementári, Rainha da Terra, é seu sobrenome na língua eldarin.

……

Terrível foi essa viagem para o sul. Íngremes eram os precipícios das Ered Gorgoroth, e a seus pés havia sombras ali dispostas antes do surgimento da Lua. Mais além, ficavam os ermos de Dungortheb, onde os feitiços de Sauron e o poder de Melian se enfrentavam, e o horror e a loucura andavam à solta. Ali moravam aranhas da cruel raça de Ungoliant, tecendo suas teias invisíveis, nas quais todos os seres vivos eram apanhados; e monstros por ali vagavam, nascidos nas longas trevas anteriores ao Sol, caçando, silenciosos, com seus muitos olhos. Nenhum alimento para elfos ou homens havia naquela terra assombrada, apenas a morte. Essa viagem não é considerada o menor dentre os grandes feitos de Beren; mas ele não falava a ninguém a respeito dela, para que o horror não voltasse à sua mente. E ninguém sabe como ele encontrou um caminho e assim chegou, por trilhas nas quais nenhum homem ou elfo jamais ousara pisar, às fronteiras de Doriath. E atravessou os labirintos que Melian havia criado em torno do reino de Thingol, exatamente como ela própria previra; pois um grande destino lhe estava reservado.

Merecem destaque estas matérias publicadas ontem:

http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2013/09/morte-de-j-r-r-tolkien-autor-de-o-senhor-dos-aneis-completa-40-anos.html

http://tolkienbrasil.com/artigos/gerais/quarenta-anos-apos-j-r-r-tolkien/

Viva Tolkien, e seus felizes leitores! 🙂

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