Maílson da Nóbrega: muito além do feijão com arroz

Imagem

 

Terminei de ler, mês passado, a autobiografia do ex-Ministro da Fazenda do final do governo do Presidente José Sarney (1985-1990), Maílson da Nóbrega, publicada em 2010: que grande lição de vida! Leitura extremamente agradável e instrutiva, recomendo-a todos, sem exceção. Transcrevo aqui estes breves trechos:

É o relato da vida de um filho de família humilde do interior da Paraíba que começou a trabalhar antes de completar dez anos de idade, como descastanhador de caju e vendedor ambulante, dos seus esforços para estudar e aprender, […] tudo conduzindo à honra de servir ao seu país em momentos dramáticos e se tornar um formador de opinião. (p. 16)

Não lembro de ter tido ambições profissionais quando criança. Era um assunto muito pouco recorrente. […] Ninguém falava disso, nem eu, e não sei por que , em dado momento, botei na cabeça que queria estudar. Imagino que tenha me influenciado uma crença local, de que quem tem cabeça grande é inteligente. E tinha quem me chamasse de Cabeção. O seu Lídio, o agente telegrafista dos Correios, preferia um eufemismo: me chamava de Rui Barbosa. (p. 46)

Mesmo os piores problemas trazem consequências positivas, se tivermos a frieza de olhá-los de frente, perceber suas causas e enfrentá-las. As sucessivas crises por que o Brasil passava serviram para revelar os gravíssimos problemas institucionais das finanças públicas federais e de seus mecanismos […]. O Brasil havia construído mecanismos de interrelacionamento entre o Tesouro, o Banco do Brasil e o Banco Central que equivaliam ao milagre da multiplicação dos pães, com a vantagem, em relação ao feito de Jesus Cristo, de que o processo podia ser repetido todos os anos. Mas os mais pobres, que no fundo pagavam grande parte dessa conta, via inflação, não podiam sequer entrar na fila do pãozinho. (p. 296-300)

No dia seguinte [à posse como Ministro da Fazenda, em 6 de janeiro de 1988], o jornal O Estado de São Paulo estampava em primeira página: “Novo ministro anuncia política feijão com arroz”. Que mancada! Que desastre! Simplório demais. Imaginei até acadêmicos falando: “além de ser um burocrata, não tem imaginação”. Eu arquitetava maneiras de consertar o passo em falso quando recebi uns três telefonemas de congratulações em relação ao anúncio: “Que sacada sensacional!”, disse um. “Parabéns”, disseram outros. A expressão se tornaria sinônimo da nossa política na Fazenda. (p. 389)

Anúncios

Poesia para alegrar o dia!

Imagem

 

Quatro versos, quatro braços,

Como a cruz do Redentor,

As trovas são o calvário

Da alma do trovador.

 

Calvário que nos atrai,

Que nos prende e faz sofrer…

Pura fonte que me oferece

Motivo para viver.

 

A dor é cadinho aonde

A alma se fortifica

E, pela graça de Deus,

Sendo boa, melhor fica.

 

Numa vida quantas vidas

Em sofrimentos e ais!

Só quem não ama deveras

Vive a sua e nada mais.

 

Ser trovador é amar,

Amar sem conta ou medida,

E ter voz para cantar

Toda a beleza da vida.

 

Por sua sensibilidade

O poeta vibra tanto

Em requintes de bondade,

Que é mais que poeta – é santo.

 

Ser-se poeta é abrir

O coração par em par

E enche-lo tanto de amor

Que se não possa fechar.

 

As tuas palavras são

O que semeias na vida.

Não deixes cair da mão

Semente mal escolhida…

 

Não digas toda a verdade

Se for triste e for grosseira.

É melhor ter caridade

Que ser muito verdadeira.

 

Diz a verdade, não mintas,

Eu digo com convicção.

Mas vê lá, toma cuidado,

Não ofendas teu irmão…

 

Como hei de conciliar

Coisas tão desencontradas,

Se há mentiras piedosas,

Verdades envenenadas?

 

Que nos valha a consciência

E, sobretudo, o amor.

Iludir para bom fim

Também tem o seu valor…

 

Nos caminhos desta vida

A joeirar, gira… gira…

Nunca vi limpa a verdade

Da poeira da mentira.

 

Neste nosso coração

Tão fraco (e tão indomável…),

Há tanta contradição!

Tanto mistério insondável!

 

Tanta gente que imagina

Saber o que é caridade

E não vê, não descortina,

A seu lado infelicidade…

 

Tantas leis! Uma bastava

Pra ser feliz o mundo inteiro:

A que entre os homens se firmasse

Amor puro e verdadeiro.

 

Todos se queixam do mundo

Aflitos, erguendo a voz!

Mas a culpa é de nós todos,

Porque o mundo somos nós.

 

Quase toda a desventura

Vem disto, repara bem:

De querer o que não existe,

Desprezar o que se tem.

 

Na vida a maior canseira

A gente suporta bem

Se houver alguém que nos queira

E a gente lhe quiser bem.

 

(Ana Rolão P. M. Abano. Caruma. Lisboa, 1958)