“O casamento gay não tira o seu direito de ser hétero”: comentários

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Na semana passada, li um artigo muito bem escrito sobre o assunto acima, neste site:

http://papodehomem.com.br/o-casamento-gay-nao-tira-o-seu-direito-de-ser-hetero/

Reproduzo aqui a minha conversa com o autor. É muito bom poder debater assuntos polêmicos assim, de uma forma amistosa! Isso não tem preço… 🙂

Alô, Tiago Xavier,

Sua argumentação é muito boa, por isso me animo a comentar algumas coisas:
primeiro, a sua frase “A sociedade avança na medida em que reconhece que não
existe uma união [sexual] intrinsecamente boa ou natural“.

Essa afirmação não se sustenta, porque nós – a humanidade e a própria natureza como um todo – só chegamos até aqui (só “avançamos”) por causa da complementaridade dos sexos, masculino-feminino. A própria etimologia atesta isso: “sexo remete-nos ao verbo latino secare (“cortar”, “dividir”, “separar”)”; ‘sexus’: “gênero, estado de ser macho ou fêmea, pois ele define a raça humana em duas partes” (via google). Rigorosamente falando, no sentido da palavra, uma relação ‘sexual’ só existe entre seres de sexos diferentes! (Alguns animais marinhos se reproduzem de forma assexuada). É por isso que se diz que a relação “heterossexual” é natural. Aliás: sob a ótica acima, “relação sexual heterossexual” é redundância.

E isso nos leva a outra questão: é óbvia (ou deveria ser) a importância da sexualidade (macho-fêmea) para a continuidade da vida. É por isso que todas as culturas humanas, desde a pré-história, sempre entenderam o casamento como um contrato entre homens e mulheres (mono ou poligâmicos). Relacionamentos afetivos entre pessoas do mesmo sexo sempre tiveram (e tem) seu lugar, mas jamais foram equiparados ao casamento. Todos os homossexuais devem ter seus direitos civis plenamente assegurados, mas não considero um avanço considerarmos uma relação homoafetiva como um “casamento”. Taí: por que não a chamarmos simplesmente de “relação homoafetiva”, com pleno respaldo jurídico?

Para finalizar: um tema subjacente em todo o seu texto foi sobre a questão da liberdade. Eu gostaria de lembrar a todos que a liberdade nunca foi e nem é um fim em si mesma. “Liberdade para que?”, já perguntou alguém. Queremos ser livres de que, de quem, e para fazer o quê com nossa liberdade? Essa é, creio eu, a grande questão de nossas vidas.

Forte abraço!

( A resposta do Tiago: )

Oi Oswaldo, valeu pelo comentário.

Não disse que o sexo “heterossexual” é desprovido de importância. Disse que deixar as pessoas se unirem de outra forma diferente da heterossexual não diminui a importância dela (daí o titulo).

Sobre a nomenclatura, eu concordo que seja uma questão secundária. Por mim, reconhecendo-se os direitos, pode chamar a união homoafetiva de qualquer coisa. Mas existe um ponto sensível ai: ao dar um nome diferente, cria-se uma aparência de diferenciação que não me parece produtiva. Infelizmente temos a tendência de classificar as coisas e atribuir valores diferentes às categorias. Isso fica problematico no campo do discurso. Acho mais fácil que coisas idênticas sejam chamadas pelo mesmo nome.

Já o negocio da liberdade se relaciona com a visão de Stuart Mill sobre o tema. Dá pra resumir dizendo que se algo não prejudica o outro, não deve ser proibido. Tem link no começo do post.

Um abraço e continue comentando.

( Minha resposta à resposta: )

Oi Tiago, você tocou no ponto-chave: “Acho mais fácil que coisas idênticas sejam chamadas pelo mesmo nome”. Mas homo e heterossexualidade não são coisas idênticas…

Também não há problema algum em classificarmos e atribuirmos valores às coisas, ou criarmos categorias para elas: as ciências fazem isso o tempo todo, e nós também, até inconscientemente. O problema é quando alguém faz uso disso para desprezar ou oprimir os outros… E, se não estivermos atentos, mesmo eu ou você podemos cair nesse erro.

Por fim, a liberdade: eu até concordo com o Stuart Mill (ao menos em parte), mas creio que ele não atingiu o cerne da questão. Não me recordo agora de nenhum autor para lhe indicar, mas gostaria de deixar algo para reflexão: nós não somos nem nunca seremos absolutamente livres, nem mesmo tão livres quanto pensamos ou gostaríamos de ser. No fundo, nossa grande liberdade humana é esta: somos livres para escolher a quem iremos servir, ie, quem vai ser nosso senhor, nosso “dono”. (Isto soa um tanto metafísico? E é mesmo…)

Abraço!

(Agora, passo a palavra a vocês, amigos leitores…)

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4 comentários em ““O casamento gay não tira o seu direito de ser hétero”: comentários

  1. Elizabeth Souza Brito da Silva disse:

    Oswaldo,

    Essa questão me deixa muitas vezes solitária, pois, como escolhi ser evangélica, os meus “irmãos” me excluem por pensar do jeito que penso e os meus colegas homossexuais e “amigos da homossexualidade” também!
    Outro dia, conversando com uma colega que defende a homossexualidade, falei, como vc, que defendo que os homossexuais tenham seus direitos legais garantidos, já que o nosso Estado é laico.
    Ela sabe que sou evangélica e ela estava criticando o fato de evangélicos quererem impedir que os homossexuais tenham direitos legais que os deixem numa situação de igualdade.
    Tentei explicar-lhe que alguns evangélicos têm medo de que a lei queira obrigá-los a fazer casamentos homossexuais, a serem obrigados a deixar que homossexuais assumam cargos de liderança na igreja, etc.
    Sei que há “cristãos” e “não cristãos” que querem mesmo acabar com os homossexuais, mas o argumento dos que estão à frente dessa luta é de que querem defender seus direitos religiosos e que o projeto de lei deixava margem para que os líderes das igrejas fossem obrigados a fazer casamentos gays, etc, por isso a reação.
    Quando eu acabei de falar isso pra minha colega, ela se virou e disse que achava que as páginas da Bíblia que condenam a homossexualidade deveriam ser rasgadas e proibidas! Fiquei chocada, já que essa pessoa é culta, bem informada e democrática!
    Nesse momento percebi que essa questão não é somente uma questão intelectual, mas é uma questão que mexe profundamente com as questões psicológicas de cada um de nós, cristãos ou não, homo ou hétero!
    Percebi que uma das grandes dores dos homossexuais é ouvir que “irão para o inferno”!
    Não acho respeitoso, nem ético um cristão falar isso diretamente para um homossexual nos dias atuais (todos eles estão cansados de saber disso), assim como não acho civilizado um homossexual querer que rasguemos nossa Bíblia (Não estamos na Idade Média! E sabemos o mal que esse período nos causou!).
    Acho que tanto os homossexuais como os héteros, todos nós, deveríamos parar para analisar por que esta questão mexe tanto conosco!
    Não adianta jogar a nossa verdade pessoal para debaixo do tapete, porque a sujeira escondida faz sempre mal, tem efeitos colaterais.
    Deveríamos nos perguntar: Eu acredito no inferno e sou homossexual? A Bíblia dá margem para mais de uma saída nesta questão? Qual saída eu vou escolher? Existe igreja para todos os gostos? Por que me sinto do jeito que me sinto quando vejo um homossexual, um homem e uma mulher?
    Desde o ventre de nossa mãe, fazemos escolhas inconscientes! Mas depois de adulto, que escolhas conscientes eu quero e posso fazer? Seja qual for a escolha, temos que pagar um preço! Mas é maravilhoso poder escolher! Todos pagam um preço, independente da opção sexual e religiosa!
    Não podemos querer obrigar o outro a pagar o preço que escolhemos para nós! Jesus nunca obrigou!
    Os homossexuais discordam que a homossexualidade seja uma escolha! Mas, não duvidem de que há muitos héteros que têm fantasias homossexuais e homossexuais com fantasias héteros! Expor nossas fantasias é muito arriscado e amedrontador!
    A questão é que todos concordamos teoricamente que o ser humano é muito complexo, mas conviver com essa complexidade é tão doloroso que não podemos fazer nada a não ser negá-la! Mas ao agir assim, acabamos querendo impor nossos conceitos e crenças!
    Oswaldo, talvez eu tenha desviado um pouco da ideia central do seu texto, mas é desta forma que eu sofro esta questão e, que bom que vc abriu este espaço de livre e respeitosa discussão!
    Um abraço!

    • Obrigado pelo seu importante comentário, Beth. De fato, creio que nosso verdadeiro e grande problema é a intolerância e o desrespeito para com o nosso próximo. Ninguém e nenhum grupo social está livre desse pecado. Espero contribuir para que muitas pessoas reflitam e, se for o caso, revejam seus posicionamentos. Abraço!

  2. Sou ateu e,diferentemente da maioria dos ateus, não digo as famosas palavras: “Vai com Deus, fica com Deus, pelo amor de Deus” e etc. Mas creio que o homem assim como a sociedade, busca sempre a felicidade do outro. Essa é a essência do ser humano e da vida em sociedade. Buscar a felicidade do outro. Homossexual ou não, o ser humano busca o prazer e a felicidade, mesmo que não raro seja sempre a própria felicidade e que se danem os outros. Acho que o importante é buscar ver, velho jargão né, o que temos por dentro.

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