Escola sem partido?

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Os pais têm autoridade máxima sobre a educação de seus filhos enquanto forem responsáveis por eles. Isso inclui os valores e as crenças. Os filhos até têm o direito de discordar, mas não o de desobedecer, enquanto estiverem sob o mesmo teto. Nesse sentido, o professor é um delegado da autoridade paterna e materna. O que o socialismo e as esquerdas em geral defendem é que o Estado tenha mais autoridade sobre os jovens do que as famílias. Essa é a raiz de todo o problema levantado pelo movimento Escola Sem Partido.

“Escola sem partido” não é sinônimo de escola sem política. O objetivo do Programa Escola sem Partido é, simplesmente, coibir incontáveis abusos que muitos professores cometem contra seus alunos (e os pais destes), em nome de uma “liberdade de expressão”. Uma coisa é a expressão de uma preferência ou ponto de vista político; outra bem diferente é a distorção ou ridicularização dos que pensam diferentemente sobre a questão. O respeito à divergência de opiniões, ou melhor, o respeito às PESSOAS que as expressam é, afinal, uma arte que precisamos aprender e reaprender a cada momento.

05/jun/2017

Gender, quem és tu? Ou: Caindo no conto do gênero…

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Capa de livro lançado recentemente no Brasil, indispensável para uma compreensão abrangente do tema. O original francês é de 2012: http://ecclesiae.com.br/gender-quem-es-tu

Resolvi transcrever, com algumas alterações para melhor compreensão, trechos desta entrevista publicada em abril de 2014 pela agência ZENIT, “Caindo no conto do gênero”, como forma de apresentar o assunto para o público não inteirado, visando aumentar o interesse pela questão:

ZENIT: Em que consiste a “Teoria de gênero”?

R: Sintetizando em poucas palavras, a teoria de gênero consiste no esvaziamento jurídico do conceito de homem e de mulher. A teoria é bastante complicada, e uma excelente explicação desta se encontra no documento “Agenda de gênero”. Contudo, a ideia é clara: eles afirmam que o sexo biológico é apenas um dado corporal de cuja ditadura devemos nos libertar pela composição arbitrária de um gênero.

ZENIT: Quais as consequências disso?

R: As consequências são as piores possíveis! Conferindo status jurídico à chamada “identidade de gênero” não há mais sentido falar em “homem” e “mulher”; falar-se-ia apenas de “gênero”, ou seja, a identidade que cada um criaria para si. Portanto, não haveria sentido em falar de casamento entre um “homem” e uma “mulher”, já que são variáveis totalmente indefinidas. Mas, do mesmo modo, não haveria mais sentido falar em “homossexual”, pois a homossexualidade consiste, por exemplo, num “homem” relacionar-se sexualmente com outro “homem”. Todavia, o “homem 1” não seria homem, nem tampouco o “homem 2” o seria.

ZENIT: Então aqueles que defendem a teoria de gênero em nome dos direitos homossexuais estão equivocados?

R: Exatamente! Eles não percebem que, uma vez aderindo à teoria de gênero, não haverá sequer motivo em combater a discriminação. Nas leis contra a discriminação, eles querem discriminar alguns que consideram mais discriminados. Contudo, não há mais sentido em diferenciar condições e papeis, tudo se vulnerabiliza! Literalmente, eles caíram no conto do gênero. (…) Em poucas palavras: a teoria de gênero está para além da heterossexualidade, da homossexualidade, da bissexualidade, da transexualidade, da intersexualidade, da pansexualidade ou de qualquer outra forma de sexualidade que existir. É a pura afirmação de que a pessoa humana é sexualmente indefinida e indefinível.

ZENIT: Então a situação é muito pior do que imaginamos…

R: Sim. As pessoas estão pensando em “gênero” ainda nos termos de uma “identidade sexual”. Há outra lógica em jogo, e é por isso que ninguém se entende. Para eles, a ideia de “identidade sexual” é apenas um dado físico, corporal. Não implica em nenhuma identidade. Conformar-se com ela seria “sexismo”, segundo a própria nomenclatura deles. A verdadeira identidade é o “gênero”, construído arbitrariamente. Todavia, este “gênero” não se torna uma categoria coletiva. É totalmente individual e, portanto, indefinível em termos coletivos. Por exemplo, alguém poderia se declarar gay. Para os ideólogos de gênero isso já é uma imposição social, pois a definição de gay seria sempre relativa a uma condição masculina ou feminina previamente estabelecida. Portanto, uma definição relativa a outra, para eles, ditatorial. Não existiria, tampouco, a transexualidade. Esta se define como a migração de um sexo para outro. Mas, dirão os ideólogos de gênero, quem disse que a pessoa saiu de um sexo, se aquela expressão corporal não exprime a sua identidade construída? Portanto, para eles, não há sequer transexualidade. Gênero, ao contrário, é autorreferencial, totalmente arbitrário.

Alguém dirá que não há lógica isso. Realmente, a lógica aqui é “ser ilógico”. É o absurdo que ofusca nossa capacidade de entender.

Como se demonstra no estudo que mencionei, o grande objetivo por trás de todo este absurdo – que, de tão absurdo, é absurdamente difícil de ser explicado – é a pulverização da família com a finalidade do estabelecimento de um caos no qual a pessoa se torne um indivíduo solto, facilmente manipulável. É uma teoria que supõe uma visão totalitarista do mundo.

FONTE: http://www.zenit.org/pt/articles/caindo-no-conto-do-genero

Literatura: Um dia na vida de Ivan Denissovitch

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Ivan Deníssovitch Chukhov é prisioneiro em um campo de concentração russo durante a 2ª Guerra Mundial. A narrativa conta um dia na vida do protagonista, do momento em que acorda até a hora em que vai dormir. O autor desenvolve o relato com muita propriedade, pois ele mesmo foi prisioneiro entre 1945 e 1953, sob o governo de Josef Stálin.

O livro é tão bem escrito e tem um senso de humor tão incrível que até parece a descrição de um acampamento de escoteiros! É sensacional. Lançado em uma revista na União Soviética em 1962, o romance foi a primeira obra publicada no país relatando a vida dos prisioneiros políticos durante a era stalinista (1924-1953). Garimpei algumas informações sobre o autor: Alexsander Soljenitsin nasceu em 1918 numa cidade próxima de Moscou. Formado em Física, era professor de matemática quando foi preso e condenado a 10 anos de trabalhos forçados, por ter feito uma piada sobre Stálin em uma correspondência particular.

Logo após o lançamento de Ivan Denissovitch, o autor foi aclamado no país como um grande escritor (governo de N. Krushov, crítico do stalinismo e seus crimes). Com o passar do tempo, porém, gradualmente foi sendo rejeitado, e seus livros (Pavilhão de cancerososO primeiro círculo) foram proibidos pelo governo. No entanto, cópias de suas obras conseguiram chegar ao Ocidente, obtendo grande repercussão. O Prêmio Nobel de Literatura de 1970 lhe foi concedido pela Academia sueca sob intensa pressão contrária do governo soviético: Soljenitsin não pode sair do país para receber o prêmio.

Em O primeiro círculo, ele escreveu: “Possuir um grande escritor equivale para um país ter outro governo. Eis porque nenhum governo nunca gostou dos grandes escritores, mas só dos pequenos”. Soljenitsin confessou que o desejo de escrever sobreveio-lhe muito cedo, “bem antes de compreender o que é um escritor e por que escreve”.

Georges Nivat, professor de Literatura russa na Universidade de Paris, escreveu sobre o autor: “Antes de tudo, A. S. visa a destruir os tabiques que encerram o homem, que o isolam. E de todos os tabiques, o mais espesso é o da perversão da linguagem humana. O mundo está atrozmente doente, não sabe mais se comunicar, perdeu o dom do diálogo, da piedade, da caridade. (…) Todo o esforço de A.S. romancista consiste em restabelecer a comunicação entre os homens da sociedade que ele descreve, em revelar o riacho subterrâneo da justiça. O que ele acusa em primeiro lugar é a mentira. (…) Ele nunca é tão severo em sua obra como ‘para com os literatos da mentira, que desviaram a literatura (…)’.”

Em 1973 foi publicada sua obra mais famosa, Arquipélago Gulag, uma descrição minuciosa do sistema dos campos de concentração soviéticos, pela qual foi exilado de seu país. Viveu recluso com sua esposa numa região rural dos Estados Unidos, tornando-se um crítico feroz do estilo de vida capitalista norte-americano. Morreu em agosto de 2008.

Para nossa felicidade, seus livros podem ser facilmente encontrados em sebos. Vivas à boa literatura universal!

 

* As citações acima são da introdução da edição brasileira de 1973 de Um dia na vida… (Editora Opera Mundi).

Feliz aniversário, Charles Darwin

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Há cinco anos, por ocasião dos 200 anos de nascimento do famoso cientista Charles Darwin, fiz a tradução de um artigo interessantíssimo do Dr. Benjamin Wiker, sobre alguns aspectos pouco conhecidos da vida e do pensamento do grande naturalista. Recentemente, minha tradução foi publicada no site da revista Terminal. Assim começa o texto:

Em 12 de fevereiro de 1809 nasceram Abraham Lincoln e Charles Darwin – uma coincidência muito interessante. Há outras coincidências incríveis em suas vidas: suas mães morreram muito cedo, menos de um ano entre uma e outra – a mãe de Charles, Susanna, em 1817, e a mãe de Abraham, Nancy, em 1818. Ambas perderam três crianças.

Ainda mais interessante: ambos eram abolicionistas convictos – Charles talvez mais do que Abraham. Para dizer o mínimo, Darwin desejava com fervor que o exército do norte dos EUA vencesse a Guerra Civil americana e levasse a escravidão à extinção. Ele chegou a escrever em uma carta: “Alguns poucos – e eu sou um deles – pedimos a Deus, mesmo ao custo da perda de milhões de vidas, que o Norte proclame uma cruzada contra a escravidão. A longo prazo, um milhão de mortes cruéis seriam amplamente recompensadas pela causa da humanidade… Grande Deus, como eu gostaria de ver abolida essa que é a maior das maldições sobre a terra, a escravidão”. Ele admirava Lincoln, mas achava-o tímido demais.

O ódio de Darwin pela escravidão não era um modismo fortuito. A causa abolicionista foi tomada com grande força e indignação pelos avôs de Charles, Erasmus Darwin e Josiah Wedgwood. Erasmus e Josiah lutaram lado a lado com o grande William Wilberforce contra o comércio de escravos britânico. (…)

Continua neste link: Feliz aniversário, Charles Darwin

Educação libertadora

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Dá muito trabalho ser livre. Mesmo assim, precisamos de algum caminho para nos tornarmos o que somos. Ninguém pode fazê-lo por nós, mas também não podemos fazê-los simplesmente por nossa conta. Precisamos de guias para encontrar guias. Algo que Aristóteles falou certa vez deve ser reiterado aqui: muitas pessoas que não conhecem livros são, literalmente, muito sábias, às vezes mais sábias do que os ditos educados. Talvez seja o caso de nosso avô ou de algum operário ou camponês comum. Devemos conhecer e respeitar as experiências das pessoas comuns. Onde quer que haja uma mente e uma realidade, alguém pode encontrar a verdade. De modo algum isso apequena nossa vontade de conhecê-la de modo mais completo e buscar a orientação de bons livros, bons professores, bons pais, boas bibliotecas e bons amigos. (…)

O que pode ser essa outra forma de aprendizado? A primeira coisa a lembrar é que a maioria das grandes mudanças, dos grandes encontros com a verdade, com o que é bom, começa em lugares tranquilos e insignificantes. Frequentemente, começos pequenos surgem como que por acaso, ainda que mesmo os acasos sejam subsumidos em nossa vocação. Assim, o que nos faz acordar pode ser o que Aristóteles chamou de “admiração”, uma curiosidade sobre o que algo significa ou é. Pode ser um amor, uma consciência de que não estamos completos por nós mesmos. Mesmo nosso conhecimento começa não em conhecendo a nós mesmos, mas conhecendo algo não somos nós, alguma outra coisa que seja.

(Sábias palavras de James V. Schall, S.J., professor de filosofia política da Universidade Georgetown. Traduzido e divulgado por Felipe Melo, no seu importantíssimo blog. Original em inglês, neste livreto).

Sorriso de mulher

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Nada é mais belo que uma bela mulher. E nada é mais fascinante, nada lava mais completamente a alma, que o sorriso de uma bela mulher. Quando a dona deste sorriso – que, claro, não tem coração – nos rouba o nosso, então, temos o apogeu de toda a beleza da Criação. É fácil, fácil demais, atribuir esta percepção do Belo à necessidade biológica de encontrar uma parceira para a reprodução. Há isso também, mas há muito mais: a mulher completa o homem em níveis muito mais profundos, muito mais verdadeiros, que o meramente biológico, que o meramente psicológico.

O sorriso da mulher amada é um vislumbre da glória prometida, é uma janela que se abre a um infinito apenas vislumbrado. Não apenas por ser feminino, mas por ser um acesso ao Feminino, àquilo que nos completa, nos torna capazes de ser plenamente humanos.

Biologicamente, também, há evidentemente um sentido, ainda que raso: se o sorriso da mulher nos agrada, temos um incentivo subconsciente para protegê-la, agradá-la; fica ainda mais fácil tornar em ato o cavalheirismo instintivo que move todo homem diante de uma bela mulher. Mas, ao mesmo tempo, é um sorriso que nos civiliza, que tira as arestas deste mesmo cavalheirismo, que de fábrica vem um pouco desordenado. É o mesmo impulso de arrancar da mulher um sorriso que leva o homem à aventura, a deixar a testosterona tomar conta e partir para a guerra, para o salto de paraquedas, para a pilotagem em alta velocidade. E é aí a reação feminina daquela bela face preocupada, ou mesmo triste, que nos impede de perder, por excesso de macheza, a admiração da mulher amada.

É o sorriso feminino que nos impede de ter uma barba até o joelho, que apavora os fabricantes de pochetes, que impõe limites àquela estranha forma de selvageria que assola o homem só. Sem este sorriso o ogro desperta, a barriga de cerveja cresce, o pelame toma formas estranhas e inusitadas.

Com ele, civilizam-se os aspectos e as aventuras; as motocicletas ganham garupas, os jardins ganham flores, e o ogro retira-se às negras entranhas do subconsciente, de onde só sairá para defender o mesmo sorriso que o aprisionou.

As invenções do homem – do fogo e da roda às bombas termonucleares e aviões – são, no fundo, o fruto desta influência civilizadora que só pode ter o sorriso da mulher amada. Sem ele, nada somos. Com ele, o mundo é nosso. Sem ele caímos àqueles 97% dos genes comuns aos outros primatas. Com ele, subimos muito além dos 3% restantes: subimos ao Céu, prefigurado na terra por aquela boca, aquele olhar.

 

(Este é mais um belíssimo artigo da pena do professor Carlos Ramalhete, que escreve todas as quintas-feiras na Gazeta do Povo:  http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1448744. Foto: Agência Reuters, dos Jogos Olímpicos de Inverno, na Rússia)