Uma pandemia observada: o que o luto por meu marido e meu filho me ensinou sobre o medo da morte

A questão não é: “eu vou morrer?”, ou: “as pessoas que eu amo irão morrer?” A pergunta correta é: “a antecipação da morte tornará, a mim e ao meu mundo, melhor ou pior?”

Katherine Baker, 09/08/2020

“Graças ao medo da morte, não queremos pensar sobre o que acontece depois que nossos entes queridos morrem. Mas deveríamos. Em nosso terror, estamos dispostos a negociar muitas coisas essenciais: liberdades básicas, nossa vida e instituições públicas por uma promessa de maior segurança contra a doença e a morte. Mas quando a morte finalmente chegar, o que faremos, quando descobrirmos que tornamos o mundo pior do que ele poderia ter sido? Se trocarmos a beleza e a ordem por ‘segurança’, não apenas descobriremos que perdemos nossos entes queridos, mas também lamentaremos por eles em uma terra desolada que ajudamos a criar. Temos tanta certeza assim de que os resultados negativos de medidas extremas de isolamento social não causarão danos maiores do que os benefícios almejados?

No Novo Testamento, em Hebreus 2:15 lemos que Cristo morreu e ressuscitou para nos libertar do medo da morte. Pandemias sempre foram frequentes ao longo da história, e nessas ocasiões, os cristãos seguiram cumprindo os mandamentos de Cristo para alimentar, vestir, cuidar e amar os necessitados. É provável que muitas doenças tenham sido transmitidas por meio desses atos de caridade. Por que os santos faziam isso, mesmo sabendo dos riscos? Porque as pessoas ao seu redor, que pediam por um amor corporificado, precisavam desse amor, mais do que de uma vida longa e livre de sofrimento.

Nenhuma doença ou morte acontece sem a permissão ou o envolvimento de Deus – pelo menos, os cristãos costumavam acreditar nisso. Cristãos sempre foram notados como pessoas que não praticavam o aborto, a eutanásia e o suicídio, mas eles também não buscavam o prolongamento de suas vidas físicas em detrimento de suas almas, nem das almas dos outros. Os santos muitas vezes davam suas vidas por outras pessoas, mas também havia coisas que eles não faziam, como adorar ídolos – nem mesmo para salvar a vida de seus próprios filhos.

Eu realmente espero que, se estivermos vivendo como igreja, possa haver grandes surtos de covid-19 nas comunidades cristãs – se for por permissão de Deus. Dietrich Bonhoeffer disse: “Quando Cristo chama um homem, Ele o convida para vir e morrer”. Se formos acusados pelas autoridades de sermos “super espalhadores de vírus”, não seria a primeira vez na história.

Ninguém acusa uma pessoa que vai ao supermercado de “espalhar germes” ali, mas parece que o culto a Deus está sendo tratado mais como um espetáculo artístico do que como o “pão de cada dia”. Porém, a liturgia e a eucaristia devem ser uma ajuda para enfrentar a possibilidade da morte – que é exatamente o que mais precisamos neste momento. A função de um sacerdote não é me manter vivo: é me ajudar a viver bem e a morrer bem.

Cristãos não devem julgar os que escolhem a segurança contra o sofrimento e a morte (como fizeram os hereges donatistas do séc. IV, que excomungaram os irmãos que fraquejaram diante da perseguição romana). Da mesma forma, cristãos não devem julgar aqueles que escolhem o risco honroso e lutam para manter abertos os locais de culto. O princípio do não julgamento é o nosso exemplo. A força e a manipulação devem ser rejeitadas. (…)”

Katherine Baker é cristã ortodoxa, viúva de um sacerdote, mãe de seis filhos, jardineira e escritora

(Breve resumo de um longo e comovente testemunho pessoal. Vale muito a leitura na íntegra, no link acima)

Evelyn Waugh: Manifesto Conservador

O famoso romancista inglês Evelyn Waugh (1903-1966), que viajou bastante pelo mundo e lutou na 2a. Guerra Mundial, publicou em 1939 o livro “Roubo ao amparo da lei: a lição prática do México“, um relato de sua viagem de três meses pelo país, em 1938. O livro contém um “Manifesto Conservador”, de sua autoria. Apresento abaixo um resumo do mesmo, em 10 tópicos:

MANIFESTO CONSERVADOR

1. O ser humano é, por natureza, um exilado, e jamais será autossuficiente ou completo nesta terra. Suas chances de felicidade e virtude permanecem mais ou menos constantes ao longo dos séculos e, em geral, não são muito afetadas pelas condições políticas e econômicas em que vive.

2. O governo é necessário: os homens não podem viver juntos sem regras, mas estas devem ser restritas ao mínimo necessário. Os elementos anárquicos da sociedade são tão fortes que é uma tarefa de tempo integral manter a paz. Não há forma de governo ordenada por Deus como sendo melhor do que qualquer outra.

3. As desigualdades de riqueza e situação são inevitáveis ​​e, portanto, não faz sentido discutir as supostas vantagens de sua eliminação.

4. Os homens naturalmente se organizam em um sistema de classes. Tal sistema é necessário para qualquer forma de trabalho cooperativo e, mais particularmente, para o trabalho de manter uma nação unida.

5. O equilíbrio entre o bem e o mal tende a reverter para uma lei. Mudanças repentinas são geralmente ruins, e são defendidas por pessoas erradas, pelas razões erradas. Intelectuais comunistas têm motivos pessoais e irrelevantes para seu antagonismo com a sociedade.

6. Acredito na nacionalidade: a humanidade se organiza em comunidades de acordo com sua distribuição geográfica; essas comunidades, compartilhando uma história comum, desenvolvem características comuns e inspiram uma lealdade local.

7. Não acho que a prosperidade do meu país deva necessariamente ser inimiga de qualquer outro, mas se em algumas ocasiões for, quero que meu país prospere, e não seus rivais. Acredito que a guerra e a conquista são inevitáveis: é assim que a história foi feita, e é assim que ela se desenvolverá.

8. Um conservador não é apenas um obstrucionista que deseja resistir à introdução de novidades. Ele tem um trabalho positivo a fazer: a civilização está sob constante ataque. São necessários esforços incessantes para manter os homens vivendo juntos em paz.

9. Existem ideias criminosas e uma classe criminosa em todas as nações, e a primeira ação de toda revolução de tomada do poder é abrir as prisões. A barbárie nunca é totalmente derrotada: dadas circunstâncias propícias, homens e mulheres que parecem bastante ordeiros cometerão todas as atrocidades concebíveis. Uma vez abertas as prisões da mente, começa a orgia.

10. Não há posição mais cômoda do que a do “dissidente” em uma sociedade estável: ele tem todas as vantagens das garantias legais, e toda a diversão de detectar as hipocrisias e inconsistências. Há momentos em que os “dissidentes” não são apenas invejáveis, mas valiosos: o trabalho de preservação da sociedade às vezes é muito árduo, mas às vezes também ocorre sem esforço aparente.

* Texto original, traduzido em português: https://waughinportuguese.medium.com/conservative-manifesto-a7d402f565f7

Vocação: “todo aquele que tem um grande chamado…”

James Tissot, “Le figuier maudit” (c. 1890)

Merece ser escutada com atenção a belíssima e profundíssima meditação abaixo, sobre o episódio da figueira amaldiçoada por Jesus, relatado nos evangelhos de S. Mateus e S. Marcos. Pregada no dia 28 de maio de 2021, a homilia, de apenas 14 minutos, termina com estas palavras:

Todo aquele que tem um grande chamado nunca será senhor nas planícies: ou será senhor dos píncaros, ou escravo dos abismos

Apreciem e tirem bom proveito deste grande pregador que é o pe. José Eduardo Oliveira (“um sacerdote de Jesus Cristo”), da diocese de Osasco, SP:

O que é a Teoria de Gênero?

Pergunta: O que é a teoria de gênero?

Resposta: é uma teoria que visa desconstruir a IDENTIDADE do ser humano, por meio da desconstrução e manipulação da sexualidade.

Segundo a teoria de gênero, nenhuma pessoa deve ser reconhecida naturalmente como “homem” ou “mulher”, porque essa classificação indicaria apenas “papéis sociais” inventados historicamente. A personalidade e a sexualidade de alguém seriam totalmente independentes de seu corpo físico.

A teoria apresenta os conceitos de “gênero”, “identidade de gênero” e “orientação sexual”, defendendo a dissociação entre o corpo e a alma do ser humano: o macho (biológico) não é mais sinônimo de homem (psicológico), nem fêmea sinônimo de mulher.

Quais as consequências práticas dessa teoria? Ora, uma pessoa confusa em relação à própria identidade JAMAIS conseguirá desenvolver plenamente sua inteligência e suas potencialidades, pois está em permanente conflito consigo mesma (corpo x alma). E, do ponto de vista político, uma pessoa confusa é absolutamente incapaz de resistir à qualquer tipo de manipulação ou tirania. E esse é, PRECISAMENTE, o objetivo dos FINANCIADORES dessa teoria/ideologia antibiológica, anticientífica e anti-humana.

(Publicado originalmente em meus perfis do Facebook e Instagram em 21/07/2021)

Ensino domiciliar no Brasil: 7 motivos para legalizar

1. Porque apenas nos dois últimos séculos é que surgiu a novidade das escolas com matrícula obrigatória, com o objetivo (explícito ou oculto) de dominar a sociedade por meio do controle do ensino, usando a desculpa da necessidade de “socialização” das crianças.

2. Porque ao longo de toda a história da humanidade as crianças nunca deixaram de ser socializadas: essa preocupação sequer existia, pois era algo que acontecia naturalmente, na tribo, na vila, no bairro, na paróquia, no condomínio etc.

3. Porque muitos grandes nomes da história da filosofia, da ciência, das artes, da política nunca frequentaram escolas, mas receberam educação e instrução em casa, com os pais ou professores particulares. Alguns exemplos dos últimos 300 anos: George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin (fundadores dos Estados Unidos), Charles Dickens, C. S. Lewis (escritores), Alexander Graham Bell, Thomas Edison, Alfred Nobel (cientistas e inventores).

4. Porque, no século XX, apenas os países nazistas/fascistas ou comunistas instituíram o ensino escolar obrigatório. Atualmente, a quase totalidade dos países mais desenvolvidos aceitam legalmente o ensino domiciliar. Exceção notável: na Alemanha, a matrícula escolar é compulsória graças a uma lei instituída em 1938 por… Adolf Hitler, e até hoje não revogada!*

5. Porque atualmente no Brasil milhares e milhares de famílias têm optado pela educação doméstica de seus filhos, com resultados excelentes e comprovados.

6. Porque a regulamentação do ensino domiciliar irá criar um novo campo de trabalho para muitos professores.

7. Porque naturalmente obrigará as escolas a melhorarem a qualidade do ensino, para não perderem alunos.

* Leitura recomendada: Por que a Alemanha proibiu o ensino domiciliar?

Hora de retornar a ativos tangíveis para investidores

Boa informação vale ouro… Traduzi alguns trechos de um bem embasado artigo publicado em francês e inglês na semana passada, que retrata com precisão a atual situação financeira mundial. Vale conferir o original.

Por Laurent Maurel: “As vendas de títulos do Tesouro dos EUA estão se acelerando. Depois dos fundos soberanos estrangeiros, agora é a vez dos Hedge Funds, que venderam um valor recorde de mais de US$ 100 bilhões em títulos do Tesouro nos primeiros dois meses deste ano. As vendas estão em seu nível mais alto desde 2018. Diante dessas enormes vendas, o FED (Banco Central dos EUA) está comprando de volta esses mesmos títulos de curto prazo, a US$ 80 bilhões por semana.

O FED está em processo de engolir não apenas a maioria dos títulos atualmente emitidos pelo Tesouro, mas também está recomprando ativos que um número crescente de fundos está vendendo às pressas, em uma operação de monetização de dívidas de uma magnitude nunca antes vista nos Estados Unidos.

Essa monetização acelerada está tendo repercussões significativas no preço das commodities. O mercado automobilístico tem sido atingido por atrasos no fornecimento de peças, o que está reduzindo a produção. No setor imobiliário, o setor de construção está arcando com todo o impacto dos efeitos iniciais da alta das commodities. O aumento no preço da madeira para construção (+180% em 1 ano!) aumentou o preço médio de construção de uma casa em US$ 24.000 em apenas 12 meses.

Há um desafio ainda maior enfrentado pelos bancos centrais, no entanto: a inflação monetária tem sido acompanhada pela criação de uma bolha de ativos nos mercados financeiros. Os bancos centrais agora se defrontam com o desafio de conter o estouro excessivamente brutal dessa bolha financeira; devem também evitar que essa liquidez estacione muito rapidamente em ativos tangíveis, o que aceleraria ainda mais o processo de inflação.

Não é a demanda que vai fazer subir os preços das coisas das quais vamos precisar, mas o repasse para a economia real da inflação que já está ‘estacionada’ nos ativos a preços completamente artificiais, que serão repassados com vários graus de violência nos meses e anos que virão. Para nos protegermos destes efeitos inevitáveis das políticas monetárias implementadas há mais de 10 anos, agora é o momento de retorno aos ativos tangíveis para um número crescente de investidores.

A corrida aos metais também se aplica à prata física. Esta transferência do mercado de papel para o mercado físico, a uma taxa de mais de 35 toneladas por dia, está em processo de construção de um impulso considerável no aumento dos prêmios sobre o preço da prata física. (…) A maior corretora dos Estados Unidos oferece atualmente um bônus de US$ 55 para cada moeda de ouro da American Eagle que ela compra.

Este retorno aos ativos tangíveis está sendo acompanhado por um retorno à realidade para um grande número de investidores, que estão descobrindo que o ouro ou prata que mantêm em sua conta bancária é na verdade apenas um produto derivado, e que é muito difícil, na verdade quase impossível, converter esse investimento em metal físico. Essa percepção ainda não é particularmente difundida, porque o ouro ainda não está no centro das atenções. (…)”

https://goldbroker.com/news/time-return-tangible-assets-investors-2272

https://recherchebay.substack.com/p/recherche-bay-numero-54-20042021

Quadragesimo Anno

– “Sobre a restauração da ordem social em conformidade com a lei evangélica, no 40º aniversário da Rerum Novarum, de Leão XIII”:

Carta Encíclica ‘Quadragesimo Anno – S. S. Pio XI – Roma, 15 de maio de 1931

II. – “Resta ainda outro ponto estreitamente ligado com o precedente: assim como a unidade social não pode basear-se na luta de classes, também a reta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência de forças.

Deste princípio, como de fonte envenenada, derivaram para a economia universal todos os erros da ciência econômica «individualista», a qual, esquecendo ou ignorando que a economia é conjuntamente social e moral, julgou que a autoridade pública a devesse deixar em plena liberdade. […]

Ora, a livre concorrência – ainda que, dentro de certos limites, seja justa e vantajosa – não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida econômica. […] É forçoso portanto recorrer a princípios mais nobres e elevados: à justiça e caridade sociais. […] Em defender e reivindicar eficazmente esta ordem jurídica e social deve insistir a autoridade pública.”

III. – “Em nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios.

Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito, e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, manipulando de tal maneira a alma da mesma que esta não pode respirar sem sua licença.

Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia atual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. […] A livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio econômico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz. […]

Como doutrina, como fato histórico ou como «ação», o socialismo, se é verdadeiro socialismo, mesmo quando se aproxima da verdade e da justiça nos pontos acima ditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã. […] Lembrem-se todos: deste socialismo ‘educador’ foi pai o liberalismo, e será herdeiro legítimo o bolchevismo.”

Dwigth Longenecker : Como o “sola Scriptura” destruiu a Bíblia

Por Dwight Longenecker

Estou lendo o livro O significado de Jesus: duas visões, dos teólogos Marcus J. Borg e N.T. Wright. Marcus Borg é um erudito bíblico liberal, enquanto N. T. Wright é mais conservador. É um bom livro, e eu o recomendo a qualquer pessoa que queira entender o ponto de vista cristão liberal e a perspectiva bíblica conservadora. Ambos escrevem bem e o livro é acessível ao grande público.

Uma das coisas que chamou minha atenção foi a história pessoal de Borg. Criado em uma igreja conservadora, basicamente fundamentalista, resolveu se aprofundar nos estudos. À medida que sua erudição e carreira acadêmica progrediam, sua crença juvenil na inerrância verbal e na literalidade das Escrituras foi desmoronando. Sua fé da Escola Dominical se transformou em algo bastante típico: “a Bíblia é apenas uma coleção de belas histórias. Vamos nos concentrar em seu significado moral, e não na dimensão histórica.”

Essa abordagem “mitológica” da Bíblia remonta a Reimarus, David Strauss e um monte de teólogos protestantes, desde o século XVII até Albert Schweitzer e Rudolph Bultmann no século XX, e que agora se tornou uma espécie de denominação cristã: a “Igreja Unida do Criticismo Bíblico”. Como qualquer denominação, ela tem seus líderes e heróis, suas ortodoxias, seus dogmas e suas formas de excomungar hereges. Se você não acredita em mim, tente minar as teorias favoritas dela: você será conduzido até a porta e ela será fechada com firmeza às suas costas, assim que você estiver do lado de fora. Contradiga as pressuposições liberais predominantes e você será ridicularizado, ignorado, demitido ou enviado a um lugar bem remoto para ensinar na Escola Dominical.

Venho pensando há algum tempo como e porque isso aconteceu. Certamente, esse é um dos frutos do Iluminismo e do racionalismo filosófico. No entanto, acredito que as raízes da podridão são ainda mais profundas. Acho que, de uma forma peculiar, elas estão enraizadas no dogma protestante do sola Scriptura – “somente a Bíblia”. Os protestantes do século XVI pretendiam que essa fosse uma crença acerca da autoridade na igreja: a Bíblia deveria ser a única fonte de doutrina e vida, de fé e prática. As tradições da Igreja foram jogadas fora.

No entanto, como a maioria dos dogmas, este adquiriu vida própria. Um dogma, especialmente se for um dogma fundamental, torna-se não apenas uma teoria ou crença abstrata, mas um modo de vida. Isso determina uma visão de mundo completa. Tomemos por exemplo o dogma católico da infalibilidade papal. Este é um dogma limitado, que define como e porque o sucessor de Pedro exerce autoridade suprema na igreja. Mas qual é o efeito disso, a longo prazo? A Igreja Católica se torna o Papa. Para muitos, o Papa É a Igreja Católica, e os católicos começam a ver tudo com os olhos do Vaticano.

A mesma coisa aconteceu com o sola Scriptura: como a Bíblia era a única autoridade em questões religiosas, ela logo se tornou não apenas a única autoridade, mas o único livro que importava. Tendo eu mesmo sido criado em um mundo fundamentalista, lembro-me de como tínhamos “igrejas bíblicas”, “acampamentos bíblicos e “escolas bíblicas”. Os eventos sociais eram estudos bíblicos, memorizávamos versículos e tínhamos jogos bíblicos. Isso é muito bom, mas meu ponto é que o sola Scriptura criou uma atmosfera na qual a Bíblia era a única autoridade em todos os assuntos. Alguém vai à Bíblia em busca de respostas, e tudo tem que ser 100% verdadeiro, palavra por palavra, sem espaço para erros humanos ou discrepâncias históricas. Sola Scriptura tornou-se uma visão de mundo monolítica e abrangente: tinha que ser estanque e defendida com rigor, ou o castelo de cartas iria desmoronar.

O pior dessa distorção é que ela é inconsciente. A última coisa que o peixe vê é a água: quem tem o hábito de parar e examinar suas suposições e pressuposições mais básicas? Essa visão de mundo inconsciente do sola Scriptura foi a atmosfera de fundo para a primeira geração de críticos bíblicos, e os que vieram depois deles. Sua erudição na maioria das vezes baseava-se apenas no texto da Bíblia, e sua leitura do texto era fundamentalista, ou seja, “cada história era absolutamente 100% histórica”. Quando isso colidiu com outras descobertas históricas ou científicas, eles tiveram uma genuína crise de fé. Eles então foram para o outro extremo, concluindo que nada era histórico. Porque discerniram elementos mitológicos, e o empirismo iluminista os ensinou que milagres eram impossíveis, eles descartaram completamente a historicidade das histórias da Bíblia.

A resposta deles a isso foi, por um lado, refugiar-se na visão liberal de que “essas histórias podem não ser historicamente verdadeiras, mas são fábulas bonitas e significativas com as quais todos podemos aprender a ser pessoas mais legais”. Por outro lado, estando presos à mentalidade do sola Scriptura, eles se dedicavam a escavar mais fundo a Bíblia e a analisá-la ainda mais profundamente.

Para mim, isso é uma espécie de doença. Você já pensou nisso? Os críticos bíblicos continuam, geração após geração, a examinar as origens do texto bíblico e a apresentar mais teorias sobre quem Jesus realmente foi, quem de fato escreveu a Bíblia, o que ela realmente significa e assim por diante. Essa obsessão com a Bíblia e suas origens, seus textos e seus detalhes indicam uma devoção contínua não ao dogma explícito do sola Scriptura, mas à atmosfera religiosa e à mentalidade subjacente da “Bíblia apenas”.

Descobri outro ângulo sobre isso quando estava pesquisando para escrever meu livro O Mistério dos Magos, sobre os antecedentes históricos dos Reis Magos na história da Natividade. Vez após vez, os eruditos bíblicos faziam afirmações ou propunham uma teoria que revelava que, embora soubessem muito sobre os textos bíblicos, eles não sabiam quase nada sobre história, política, economia, geografia e costumes do mundo no tempo de Jesus. Seus comentários eram baseados em entendimentos superficiais de Escola Dominical. Suas conclusões baseavam-se em entendimentos de segunda ou terceira mão, desatualizados, que eles haviam aceito sem crítica. Por que isso? Eu sugiro que foi porque eles operavam em uma atmosfera e contexto inconscientes do sola Scriptura. O texto bíblico era tudo o que eles olhavam.

Outros, simplesmente, não estavam interessados na possibilidade de que os Magos pudessem ser figuras históricas, e por isso (surpreendentemente) ninguém os investigou. Enquanto eu pesquisava para o meu livro, esperava que outra pessoa já houvesse escrito a respeito. Ninguém o fez, porque os estudiosos estavam todos debruçados sobre suas teorias críticas do texto, não prestando atenção em mais nada. Eles eram cristãos do tipo “somente a Bíblia”, prestando pouca atenção ao contexto histórico e cultural.

Claro, isso não é verdade para todos os estudiosos da Bíblia. Há muitas pessoas fazendo um trabalho maravilhoso na interface entre a história e a cultura do primeiro século e a Bíblia. Em nossa época, descobertas arqueológicas e textuais fantásticas vem sendo feitas o tempo todo. No entanto, muitas vezes essas descobertas não penetram nos “recintos sagrados” da erudição acadêmica: em vez disso, suposições e teorias do início do século XX continuam a ser sustentadas por um dogmatismo sectário quase intencional, tão fechado quanto o fundamentalismo que os liberais tanto abominam. Isso atinge seu extremo mais absurdo quando você encontra estudiosos da Bíblia que preferem se apegar a teorias liberais desatualizadas do início do século XX, deliberadamente ignorando e descartando evidências arqueológicas e culturais que contradizem suas teorias.

Qual é o meio termo? Em O Mistério dos Magos, sugiro que devemos ler a Bíblia de forma objetiva e crítica, mas tendo consciência de alguns pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que o sola Scriptura é uma doutrina falsa inventada por homens, que tem causado mais danos à verdadeira interpretação das Escrituras nos últimos 500 anos do que qualquer outra coisa. Em segundo lugar, se isso for verdade, então, enquanto defendemos o cânon das Escrituras como regra para a doutrina e a liturgia autorizadas, também lemos com interesse todas as outras literaturas da igreja primitiva. Terceiro, presumimos que, quanto mais antiga a literatura – canônica e não canônica –, mais ela está em contato com o fundamento histórico dos relatos bíblicos. Quarto, embora presumamos que haja base histórica, não precisamos entender as histórias bíblicas de forma estritamente fundamentalista, palavra por palavra: podemos permitir erros humanos na transmissão. Podemos permitir a elaboração das histórias ao longo do tempo. Podemos permitir que agendas teológicas tenham informado a seleção das histórias e a maneira como elas são relacionadas.

Com uma abordagem equilibrada, podemos evitar tanto a posição liberal extrema de rejeitar virtualmente toda a historicidade quanto a insistência fundamentalista de que cada palavra deve ser factual e historicamente precisa.

Original: https://dwightlongenecker.com/how-the-bible-only-destroyed-the-bible/

Espere por Cristo, não pelo anticristo

Igumen Nektary (Morozov) – Março/2020

Você não encontrará nenhum cristão bem informado que não tenha alguma noção dos eventos que precedem a Segunda Vinda de Jesus. No entanto, uma parte dos cristãos não apenas lembra que o anticristo virá, mas antecipa ansiosamente sua vinda.

Sem dúvida, somos chamados a prestar atenção ao que acontece ao nosso redor. Devemos “discernir os sinais dos tempos” (Mt 16.3). Mas também devemos ser temperantes e sóbrios, tendo em mente a exortação do apóstolo Paulo: “Rogamos… que não se deixem abalar nem assustar tão facilmente por aqueles que dizem que o dia do Senhor já começou” (2Ts 2:1-2).

Temos visto discussões sobre a vacinação da população, na qual as pessoas serão ‘chipadas’, e um ‘campo de concentração eletrônico’ no qual todos nós estaremos condenados à destruição. Serei franco: tenho certeza de que a possibilidade de implantar chips nas pessoas é real. O ‘campo de concentração eletrônico’ parece ameaçador, mas, sob muitos aspectos, ele já foi construído.

Mas esse não é o ponto. A questão é: eu não quero viver aterrorizado diante disso. Sim, tecnologia da informação e a biotecnologia estão remodelando a realidade diante de nossos olhos. Ainda assim, não podemos dizer que o anticristo virá amanhã ou depois de amanhã. Então, por que a conscientização dessa realidade deveria trazer confusão e pânico? Por que deveríamos parar tudo e dedicar toda nossa energia a resistir ao Bill Gates e às torres 5G em todo o mundo? De onde vem esse medo que paralisa nossa vontade, se transforma em agressão, e depois em um estupor infrutífero?

Graças a Deus, essa não é a situação da maioria das pessoas da Igreja. Mas o problema é que o alarmismo é infeccioso, e seus representantes são ativos e barulhentos.

Quero lembrar aos outros e a mim mesmo que devemos viver HOJE, não importa como imaginemos que será o nosso amanhã. O hoje existe, com suas necessidades, tristezas e alegrias, que requerem coragem e gratidão a Deus. E as seguintes palavras de Cristo sempre foram e permanecem relevantes: “Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6:34).

Não espere pelo anticristo, não se prepare para a vinda dele. Em vez disso, espere pelo Senhor, e aprenda a viver com Ele neste momento. Medo, dor e confusão indicam quão longe estamos agora do Senhor, e quão pouco parecemos ser seus discípulos.

Se realmente devemos nos preocupar com os “sinais dos tempos”, que seja no sentido de remover tudo que nos impede de estar com Cristo por meio da oração, abrindo totalmente nossos corações para Ele, que nos ensinará e nos guiará nas provações, sem prejudicarmos nossas almas.

Isso está em nosso poder. Isso é algo que depende de nós. Quanto ao resto – o resto é fantasia e ilusão de controle de nossa parte.

Fonte: https://orthochristian.com/131556.html

O salmo 91 garante proteção divina?

salmo 91

Trina Dofflemyer*

O Livro dos Salmos é o livro de canções do povo de Israel, composto no gênero literário poesia. Os salmos são poemas musicais que expressam as emoções mais profundas de seus autores, sendo portanto modelos de oração e louvor. Eles não visam ensinar doutrinas.

O Salmo 91 é um poema de confiança, que começa com um testemunho pessoal do narrador: Deus Todo-Poderoso é seu refúgio e fortaleza. O salmista convida o ouvinte/leitor a também confiar no SENHOR, descrevendo em imagens poéticas as maneiras pelas quais o Senhor travará batalhas e protegerá aqueles que nele se refugiam. Nos v. 14-16, o próprio SENHOR afirma: quem o ama sabe seu Nome, que é uma revelação de sua natureza. Deus é libertador compassivo, pastor gentil, que enxerga cada um individualmente.

Se quisermos ler os salmos como promessas literais, ficaremos confusos e até desapontados. Deus certamente responde a orações e pode nos prover proteção imediata, mas acima de tudo ele deseja que confiemos em sua sabedoria – e não que pensemos que ele cederá à nossa sabedoria. Não podemos determinar o que ele deve fazer.

O Salmo 91 na vida de Cristo

Na tentação de Jesus, Satanás citou o Salmo 91:11-12, usando as palavras fora da intenção do texto. Mas Jesus respondeu ao diabo: “Também está escrito…”. Isso nos alerta para a possibilidade de que nós também podemos ser enganados ao ler e interpretar as Escrituras.

Certa ocasião, em Nazaré, Jesus enfureceu os judeus com seus ensinamentos. Eles o expulsaram da cidade e o levaram para uma colina, com a intenção de jogá-lo do penhasco. Milagrosamente, Jesus atravessou a multidão e escapou. Aqui, vemos um exemplo de proteção divina.

No entanto, tempos depois Jesus sofreu uma injustiça cruel: ele foi traído, açoitado, escarnecido e crucificado. Dessa vez não houve livramento milagroso, porque a crucificação era parte do plano de amor do Pai por sua criação.

O Salmo 91 hoje

Quando oramos o Salmo 91, reconhecemos que Deus é capaz de intervir prontamente em situações de perigo e violência. No entanto, devemos equilibrar esse conhecimento com o restante das Escrituras, que mostram a realidade de sofrimento e perseguição ao povo de Deus em sua peregrinação terrena.

Deus é rei sobre nossas vidas e sobre a criação. Quando afirmamos nossa confiança nele, mesmo em tempos de terror ou pandemia, retiramos nossa vida do controle dos Poderes deste mundo e a colocamos nas mãos dele. Não importa o que aconteça, descansaremos à sua sombra e teremos sua fidelidade como escudo.

Após o fim da vida temporal, ficaremos surpresos quando o Pai revelar como Ele orquestrou inúmeras respostas às nossas orações, que agora são invisíveis aos nossos olhos. Por isso, digamos confiantemente com o salmista: “O Senhor é meu refúgio e minha fortaleza, meu Deus, em quem confio”.

*Traduzido e adaptado de: RZIM